segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Dois tempos e um destino

*Aviso*

Se for sensível ao tema morte e textos com sugestão leve ao terror, não recomendo a leitura.

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Dois tempos e um destino

Candelabros de cobre, adornados com um manto tecido por aranhas, a chama trêmula pelo vento choroso que adentrava por frestas o recinto gélido, cujas lamúrias mórbidas assolavam o espírito inquieto que lia com fervor cada pagina, cada livro, da imensa torre de pesquisa que formara horas atrás ao explorar a biblioteca pela centésima vez em uma semana.
- Boa noite aluna, feliz halloween. – cumprimenta a bibliotecária, uma senhora reservada, de aparência polida e elegante.
- Boa.
- Perdoe-me a intromissão, eu geralmente apoio e incentivo, entretanto, sua busca incessante por conhecimento, como poderia dizer-te? Eu... Vejo algo além, não apenas uma sede acadêmica por respostas.
- Belo trabalho, assertivo.
- Observação é uma característica nata.
- Refiro-me a decoração, devo parabeniza-los – as turmas de cenografia.
- Como dizia teu semblante a cada nova pesquisa exprime fome.
- Sedenta ou faminta? Decida-se, por favor.
- Perdoe-me sou apenas uma velha que se preocupa em demasia. Contudo, ouça-me, eu admiro discentes aplicados que se dedicam ardorosamente aos estudos...
- Porém...
- Confraternização tem relevância acadêmica.
- Relevância trivial e prescindível. Festinha tola e previsível, perdão, mas recuso distrações infantis.
- Tão jovem e amarga.
- Tão velha e intrometida.
- Gênio forte em personalidade, lamentável não ser em intelecto.
- Elegância e discrição em trajes, lamentável não ser em modos.
A gargalhada da bibliotecária ecoou por todos os corredores do recinto.
- Há anos não me divertia, sua vivacidade é contagiante.
- Entretê-la é o meu trabalho. Aborrecer-me consiste ao seu, cara senhora.
- Vejo muito do que eu era ao vê-la nessa semana e ouvi-la nos últimos minutos. Perdoe essa velha sentimental, mas a nostalgia é tão dolorosa, há 50 anos eu era como você.
- Era? O sarcasmo ainda faz parte da senhora.
- Talvez nem tudo tenha se perdido com o tempo.
- Perdido? Não creio, minha hipótese é que esteja apenas adormecido em seu ser, desperte-o se desejar.
- Receio não deter mais esse poder, o tempo encarcerou-me.
- Resignar-se é infrutívoro, burle o tempo e liberte-se.
- O tempo é perspicaz, resigne-se, alie-se ou pereça.
- E optou pela resignação, e o meu intelecto que é fraco.
- Aliança com o tempo é um contrato ludibrioso e devastador, não é sensato compactuar com o tempo.
- Lecionava filosofia, cara bibliotecária?
- Eu era historiadora.
A bibliotecária ia prosseguir, mas o vento exigiu-lhes atenção, com passagem feroz escancarou as janelas, apoderando-se da luz dos candelabros, conduzindo a fumaça das chamas recém-apagadas, esvaindo-as num sincronismo gracioso e sombrio, cujo cheiro desagradável era o único vestígio de sua existência.
Os resquícios de fogo de uma das hastes do candelabro caíram sob as teias que o encobria, e por sob as páginas do livro que o vento acabara de derrubar da torre, abrindo-o com a queda. Fascínio e horror em contemplação perante a manifestação ruidosa do vento, não atentaram ao seu entorno, e quando sentiram a crescente e intensa onda de brilho e calor, era tarde demais. O tempo passado e presente findaram aos gritos.

Fim

P.S. Escrevi essa estorinha pra brincar num desafio de halloween. Adoraria ler vossas interpretações, queridos(as) leitores(as). <3

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